Foto: Vilma Gama |
Há um tempo não publico nada por aqui.
Há um tempo não muito distante meu pai deixou este planeta.
Há uma semana e meia o blog completou 10 meses.
E a roda viva do tempo não para.
"As mãos de meu pai"
"As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
- como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre
cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que
se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua
cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste
alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o
vento?
Ah, como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas
mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas...
essa chama de vida - que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma."
Mário Quintana
*Poema publicado originalmente no livro Esconderijo do Tempo, retirado de Poesia Completa - Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 491)